Ligações rápidas

Horário de Funcionamento:
Segunda, Quinta e Sexta
15:00 / 20:00

Sábados e Domingos
11:00 / 18:00

 

 

Áreas Principais

 

 

sobre Mário Dionísio

 

 

Da esperança ao desencanto? Num primeiro momento, a crença de que "escrever um livro se inseria simplesmente numa atitude militante de dádiva total: o fito era contribuir, também por esse meio e sem demora, para a transformação do mundo". E no fim, esta conclusão: "Valeu a pena? A vida me ensina que muito pouco vale a pena, mesmo se a alma nada tem de pequena". Mas pegar em duas frases, uma referente à partida, outra à chegada, e tentar aprisionar nelas um autor, um itinerário que se caracterizou por uma intensa problematização, tem pouco sentido. A esperança inicial conduziu a muitos equívocos, gerados em torno do neo-realismo e do próprio Mário Dionísio, geralmente considerado o principal teórico desse movimento (e prejudicado por isso, a obra do teórico fez muitas vezes esquecer o poeta e o ficcionista). Equívocos de que os próprios neo-realistas (mais uns do que outros) foram responsáveis, no ar­dor das polémicas. Este, por exemplo, que apesar de todos os desmentidos persiste na boca dos seus acusadores: para os neo-realistas, a literatura seria um simples instrumento, simples panfleto ao serviço de ideais de natureza social. Um meio, não um fim. "Atitude militante", "contribuir para a transformação do mundo"... Estas palavras, pronunciadas pelo próprio Mário Dionísio, muitos anos depois, não confirmam as acusações? Não vou discutir se essa eventual instrumentalização da arte seria efectivamente um pecado, não vou discutir se mesmo um panfleto não pode ser literatura e da boa, não vou discutir se Giotto deverá ser excluído da arte pelo facto de "servir" a religião, etc. Limito-me a dizer que aquelas frases de Mário Dionísio, embora possam parecer legitimar a tal acusação da literatura como simples instrumento, têm um significado completamente diferente. Por estranho que pareça, o neo-realismo, com todo o seu marxismo (ou apesar do seu marxismo) participa duma velha ideia platonizante: a de que o Belo e o Bem se identificam. Deste modo, a Arte não pode ser considerada instrumento ao serviço da Justiça, Arte e Justiça identificam-se. E porque Literatura e Justiça se identificam, porque o Bem e a Beleza são uma e a mesma coisa, a sociedade será transformada, uma sociedade em que, por não haver Justiça, não há Beleza. Ilusão? Não discuto agora se é ilusão, procuro apenas desfazer um equívoco, mesmo se admito que a minha argumentação (evocando Platão!) seria, muito provavelmente, recusada pelos neo-realistas e portanto pelo próprio Mário Dionísio. Mas, no fundo, quando ele recusava a distinção forma/conteúdo não seria aquela "reminiscência" platónica que muito discretamente se fazia sentir?

 

Mário Dionísio amadureceu intelectualmente na década de 30, sob o choque da Revolução Russa, da Frente Popular francesa, da Guerra Civil espanhola, numa Europa em parte dominada pelo fascismo. Teremos de estranhar que reagisse como reagiu ao mundo em que vivia? Mais: teremos de condená-lo (e aos outras neo-realistas), acompanhando assim os seus actuais detractores?

 

A arte neo-realista (a boa e a má) foi uma resposta (uma das respostas possíveis, houve outras) à sua época, assim como as condenações actuais são uma resposta (uma das respostas possíveis) à nossa época. O tempo do neo-realismo era o tempo dos grandes ideais. O nosso, o tempo em que, numa larga medida, os ideais se esvaziaram, substituídos muitas vezes pelas ambições puramente individuais dum "salve-se quem puder" que não é céptico, mas cínico. A ser isto verdade (não sou sociólogo para propor grandes teorias explicativas) é natural que o neo-realismo seja combatido – ele tornou-se incómodo (uma das características da arte, aliás, ser incómoda). No fundo, o neo-realismo (as grandes obras do neo-realismo) são hoje, tantos anos depois, uma ferida aberta na nossa consciência, espinho cravado na nossa irresponsável tranquilidade. É preciso riscá-lo da face da Terra, demonstrar que não é arte, ridicularizá-lo. E quando for impossível ignorar certas obras, esconder o fogo generoso que as aquece. O fogo generoso, embora já toldado por um certo pessimismo, que aquece um dos mais importantes, dos mais inquietantes romances da moderna literatura portuguesa (talvez por isso pouco citado): "Não Há Morte Nem Princípio".

 

Augusto Abelaira

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017