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A CASA DA ACHADA FAZ 5 ANOS

Texto de Diana Dionísio na apresentação dos 5 anos da Casa da Achada
27 de Setembro de 2014

 

A Casa da Achada faz cinco anos. O Maçariku morreu. Na Casa da Achada ainda estamos, e por muito mais tempo estaremos, em estado de choque. Foram o Maçariku e a Eduarda que tiveram a ideia de fazer esta associação. Com centenas de outras mãos ao lado, foram eles quem construiu a Casa da Achada - Centro Mário Dionísio. O Maçariku vivia com a Eduarda no andar de cima, esteve cá todos os dias, quase todos os 1826 dias, destes cinco anos. E nos anos anteriores, em que tudo se imaginou. Em praticamente tudo o que aqui se passou houve dedo do Maçariku. Dedos, aliás, das mãos e dos pés. E da cabeça.

 

O Maçariku morreu no dia 1 de Agosto. Ficámos sem pai, sem irmão, sem trolha e sem filósofo, sem uma das paredes-mestras desta associação, deste espaço, desta ideia. O Maçariku trazia consigo uma ideia de associação, de colectivo, uma ideia de como se punham as coisas a funcionar. E gostava de coleccionar máquinas que já não funcionavam. Porque gostava de História e de saber de onde é que as coisas vêm. Porque gostava de aprender com quem sabia coisas que não vêm nos livros nem em vídeos na net. Bastaram uns meses depois de chegarmos ao Largo da Achada e o Maçariku já se relacionava com todo o bairro.

 

Ainda não acreditamos que o Maçariku morreu. Andamos e andaremos sempre à procura da sua voz, das suas discussões exaltadas, da sua teimosia, da sua forma de fazer as coisas o mais ilegal e aburocraticamente possível, à margem do sistema. Ainda não percebemos como vai ser possível continuar a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio sem o Maçariku estar cá.

 

Mas a verdade é que ele está cá. Em todos os objectos, na organização dos materiais, na montagem das sessões, na mediateca, nas sessões de cinema, e sobretudo nas pessoas, nas pessoas que tanto aprenderam com ele, a viver e a fazer. Não sabemos como vai ser possível. Mas afinal não é para isso que cá andamos, não era para isso que ele sempre cá andou: para fazer recuar as fronteiras do possível, para tornar possível o impossível?

possível o recomeço
possível o sobressalto
possível o sonho solto
possível um mundo novo
possível o impossível

outro é o destino do homem
(Mário Dionísio)

Não penso que seja demais dizer que a Casa da Achada tornou vários impossíveis possíveis. Durante cinco anos, houve sessões de leitura do ciclo «A Paleta e o Mundo» todas as segundas-feiras das seis e meia às sete e meia da tarde. Durante cinco anos, houve sessões de cinema todas as segundas-feiras à noite, ao ar livre nos meses de Verão e cá dentro nos outros. Durante cinco anos, houve oficinas para todas as idades todos os domingos, das três e meia às cinco e meia da tarde, e ensaios do coro todas as quartas-feiras às nove e meia da noite. Agora há um grupo de teatro comunitário que funciona desde há um ano.

Para além destas actividades semanais, houve ainda centenas de outras sessões com regularidade mensal: «Amigos de Mário Dionísio», «Clube de Leitura» e grupos de leitura, «histórias da História», «Itinerários», «Livros das nossas vidas», «Mário Dionísio escritor» e «Mário Dionísio escritor e outras coisas mais», bem como várias exposições diferentes.

 

E, para além destas, ainda houve muitos acontecimentos anuais ou sem regularidade ou únicos: a «Semana de Abertura», os «Fim-de-Semana Diferentes» (em Dezembro), os aniversários da Achada (em Setembro), a «Leitura Furiosa» (em Maio), a Feira da Achada (em Julho), os 25 de Abril e 1º de Maio, a «Kantata de Algibeira», os «Direis que não é poesia», «Para que serve o canto popular», «Pensamentos & Achados», «Máscaras, prisões, liberdades e cifrões», etc, etc, e saíram várias edições, sete delas na colecção Mário Dionísio.

 

Ao longo destes cinco anos, a Casa da Achada também acolheu actividades de outros, quando, por razões mais ou menos directas, fez sentido fazê-lo. Não sabemos dizer quantas pessoas por aqui já passaram e já cá fizeram coisas.

 

Lamentamo-nos às vezes que pouca gente até agora tenha visitado e usado o Centro de Documentação – que tem à disposição de todos o espólio e a biblioteca de Mário Dionísio e de Maria Letícia –, a Biblioteca Pública – onde é possível ler e usar o computador e onde é possível requisitar livros e filmes –, os Livros Livres – de onde é possível levar livros e deixar outros. Mas talvez seja aos poucos que as pessoas vão sabendo e se vão habituando às possibilidades que a Casa da Achada tem. Também sabemos que os livros e os papéis não estão na moda. Daí acharmos que trabalhamos com impossíveis.

 

No início da Casa da Achada, quisemos fazer todas as coisas com entrada livre, mas pusemos uma ressalva: as sessões são de entrada livre, até quando deixar de ser possível. Entretanto já reformulámos esse possível. Fazer todas as sessões com entrada livre é uma condição que já não se questiona. Queremos fazer as coisas para todos e sem a barreira do dinheiro, sempre. Quem vem às oficinas, ao cinema ou ver as exposições não tem de pagar, e quem vem dar uma oficina ou vem falar sobre isto e aquilo não recebe por isso. Queremos fazer coisas para outros e receber coisas de outros só com a vontade como intermediária. Mesmo que, por isso, a Casa da Achada ande a viver na corda bamba. E agora a corda bamba está a abanar muito. O dinheiro que às vezes vem dos subsídios pontuais que pedimos, para o próximo ano, ou anos, prevê-se que seja muito pouco. Ou não estivéssemos nós neste mundo como está.

 

Talvez seja este um bom momento para pedir a quem possa e queira que deixe umas moedas e notas no nosso porquinho ou que se faça Amigo da Casa da Achada e pague as quotas. Não temos vergonha de vos pedir isto porque percebemos que só contando uns com os outros vamos poder continuar a existir e a fazer coisas, sempre de entrada livre.

 

Depende de todos que a Casa da Achada exista. Não só por esses trocos no porquinho, mas sobretudo por virem, por estarem, por proporem coisas, por ajudarem, por quererem. Ruis, Tonis, Eduardas, Dianas, Claras, Pedros, Rubinas, Youris, Cláudias, Marianas, Mathildes, Franciscos, Joões, Reginas, Laras e Liras, Carlas, Antónios, Cristinas, Eugénias, Marias, Gabrielas, Nunos, Brunos, Sónias, Martas, Euricos, Fernandos e Fernandas, Luíses, Sérgios, Elsas, Paulos, Antoninos, Patrícias, Jorges, Sebastiões, Veras, Inêses, Lenas e Helenas e Hélènes, Zés, Henriques, Sofias, Joanas, Danielas, Manuéis, Manuelas, Catarinas, Anas, Filomenas, Leonores, Irenes e Ireinas, Joaquins, Hélderes, Paulas, Mários , Carolinas, Susanas, Natércias, Vítores, Gonçalos, Ricardos, Teresas, Isabéis, Alessandras, Carlos e Rossanas, e Gianfrancos, e Giuseppes, e Karines e Carols e Jaquelines e muitos outros nomes de guerra. Se não andarmos por aqui, todos estes nomes em choque, a Casa da Achada não existe.

 

Foi antes da morte do Maçariku que começámos a planear estes dias que assinalam os cinco anos da Casa da Achada. Com a morte do Maçariku, com todas as forças em baixo, duvidámos das nossas capacidades para fazer estes cinco anos da Achada. Depois talvez tenhamos compreendido que fazer estes dias dos cinco anos da Achada era o que ele queria que tivéssemos feito. Continuar, teimar.

 

E também talvez o tivesse querido o Rui-Mário Gonçalves, de quem não posso deixar de falar, fundador desta casa e que muitas coisas aqui fez, crítico e amigo de Mário Dionísio, a quem este ofereceu a sua primeira pintura abstracta, datada de 1963, A visita inesperada, que agora, após a sua partida inesperada, fará parte do espólio do Centro Mário Dionísio.

 

Ontem, o grupo de teatro comunitário da Achada, orientado por F. Pedro Oliveira, apresentou o espectáculo «Mãos ou as inquietações». Hoje, passámos vários filmes da Achada desde as onze da manhã. Esta exposição está a inaugurar: «10 artistas de que Mário Dionísio falou». O Pedro Soares já vos vai dizer umas palavras sobre ela. Acompanha a exposição uma nova edição do Centro Mário Dionísio: o livro Prefácios, de que vai falar depois a Maria João Brilhante. Depois destas apresentações, vai haver uma espécie de speakers’ corner: uma série de intervenções, de muito poucos minutos cada uma, sob esta ideia: «Com que mundo sonho quando estou acordado». Para além de quem já preparou intervenções, qualquer um está convidado a intervir, se quiser. Amanhã, domingo, vai haver cinco oficinas ao longo do dia, também com o tema «Com que mundo sonho quando estou acordado»: às onze, colagens, com o José Smith Vargas; ao meio-dia, fabricar um texto, com a Regina Guimarães; às três da tarde, fotografia, com o Youri Paiva; às quatro, fazer uma canção, com o Pedro Rodrigues; às cinco, pintar com as mãos, com o Pierre Pratt. Na segunda-feira, às seis e meia da tarde, há sessão de leitura, com paragens para explicações e projecção de imagens, de O drama de Vicent Van Gogh, de Mário Dionísio. Às nove e meia da noite, projectamos Alphaville, de Jean-Luc Godard, com apresentação do Saguenail. Se não chover, é ao ar livre.

 

Quando a Casa da Achada faz anos, em 29 de Setembro, costuma preparar-se uma Ficha – o boletim da Casa da Achada, que normalmente traz um balanço de metade do ano (a outra metade do ano sai na Ficha que costuma sair no 25 de Abril). Este ano não fizemos esse boletim, mas podem folhear, na mesa junto ao balcão, os dossiers com os cartazes de tudo o que se fez nestes cinco anos. E, em vez da Ficha, fizemos uma folha com quatro textos que quatro pessoas escreveram sobre o Maçariku, que está na mesa redonda da entrada, e podem levar.

 

Foram cinco anos. Venham mais cinco.

 

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André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017