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Casa da Achada

 

 

Textos de Regina Guimarães sobre quadros de Mário Dionísio

 

 

Quadro de Mário Dionísio - «SÔBOLOS RIOS QUE VÃO» (CAMÕES), acrílico s/ papel, 38,5 x 28,5, 1989

 

Sobolos rios

 

A tela não tapa o sol com uma peneira. Como nas redondilhas de Camões é preciso imaginar o leito do rio, a copa da árvore, a margem movediça e a flauta muda para nos aproximarmos do sentido da correnteza, da forma da sombra, da matéria da lama e do silenciamento daquilo que foi instrumento. Se quisermos ser justos - de uma justeza capaz de ver o desajustamento do momento ao momento - até será útil dispormo-nos a calcular a distância que nos separa da ideia de cidade e avaliar a ideia de cidade que nos abeira das ideias. A tela não tapa do sol com uma peneira porque, exactamente como o operário de Babel subia de patamar ao tempo que assentava as pedras da torre, assim o pintor se torna mestre das matérias de que necessita para desaprender a pintura.

 

 

 

Mário Dionísio, Sôbolos rios que vão» (Camões), acrílico s/ papel, 38,5 x 28,5, 1989

 

Quadro de Mário Dionísio A BOLA DE CRISTALx, acrílico s/ papel, 37 x 28v

 

 

Bola de cristal

 

«Não copiem muito d'après nature. A arte é uma abstracção» recomendava Gauguin. Terão porventura corrido rios de tinta acerca daquilo que procuravam os pintores abstraccionistas. Não li contudo em lado nenhum que a arte é parte. Aqui o pintor não precisou de retiro no bordel ou de refúgio na ilha para nos mostrar que a terra tem a cor pisada e rósea da carne. Aqui o conhecimento das trevas revela-se na busca do seu reverso solar. E a pintura constrói-se como avesso de roupa na penumbra da alfaiataria. Paleta de Gauguin e de novo um tempo de cortar à faca. «A terra é azul como uma laranja» reparava Éluard, também ele indagando por vezes caminhos na secção negra dos alinhavos.

 

 

 

Mário Dionísio, A bola de cristal, acrílico s/ papel, 37 x 28, 1991

 

 

Quadro de Mário Dionísio - SUBINDO PARA A VILA E SEU CASTELO, acrílico s/ tela, 100 x 81, 1988
Mário Dionísio, Subindo para a vila e seu castelo,
acrílico s/ tela, 100 x 81, 1988

Subindo para a vila e seu castelo castelo

 

Considerando que uma tela é uma parte que não há e passa a haver, considerando que uma pintura é uma realidade que não se via e passa a poder ser vista, considerando que um pintor é um ponto de vista que porventura não se exprimia e passa a ser expresso, tudo isso não explica a parte concreta que passa a ser graças à arte, a realidade da pintura nunca poder ser vista de maneira unívoca e o ponto de vista só ganhar expressão mediante pelo menos um outro ponto de vista (ainda que proveniente do mesmo detentor dos órgãos que permitem a visão). Porém, mesmo assim não se pode dizer que a pintura seja apenas uma forma de tornar visível algo de invisível a partir do olhar de alguém que fabrica alguma visibilidade. Resta-nos ponderar as hipóteses peregrinas de a pintura ter de prescindir da parte que lhe cabe para haver - o que significa ir em busca do que não cabe -, ter de duvidar da realidade do poder ser vista para dar a ver - ao contrário do que normalmente acontece entre o que vê e o que é visto -, e ter de encarar a tarefa de

amalgamar vários pontos de vista para reter a atenção de quem pode vir a olhá-la. A pintura não é caçadora de imagens, por isso é capaz de tirar vários coelhos do mesmo chapéu sem ter especialmente vontade de os matar de uma só cajadada.

 

 

 

Quadro de Mário Dionísio -  CAMPONÊS ARMADO, óleo s/ tela, 100 x 81, 1979
Mário Dionísio,  Camponês armado,
óleo s/ tela, 100 x 81, 1979

 

Camponês armado

 

Qual a fronteira entre a abstracção e a figuração? Eis uma verdadeira falsa questão. Quer entendamos por abstracção a operação pela qual conseguimos separar uma parte do todo, quer prefiramos ver nela o processo mental pelo qual as ideias se distanciam dos objectos, quer nos contentemos com o enlevo próprio do sujeito absorto, estado algo próximo da (amiúde proveitosa) distracção, toda a pintura contém forçosamente todos esses modos do pensamento. Seja ela muito discretamente racional ou muito descaradamente sensual - de resto, este tipo de oposições não resistem a um curto exercício de cepticismo... É isto que subtilmente nos diz (entre outras coisas) esta tela, em que um camponês - que não havia mas passa a haver - se mostra em armas - que não existiam e o pintor começou a inventar. A este camponês que não existe, Mário Dionísio oferece a tensão das cores e formas, pelo que, armado, ele logo tende a existir, sob um modo provocatório que não deixa de evocar aquilo que José Gomes Ferreira dizia da/à camponesa Dulcineia, companheira de Quixote. A saber: «Dulcineia, Dulcineia, deixe de ser ideia...».

 

 

 

 

Quadro de Mário Dionísio - JARDIM ESQUECIDO, acrílico s/ tela, 41 x 33, 1989
Mário Dionísio,  Jardim esquecido,
acrílico s/ tela, 41 x 33, 1989

 

Jardim esquecido

 

Compreender é ficar por dentro. Ficando com isso que se apreende cá dentro e ficando lá dentro. Compreender a pintura só nesse sentido é porventura possível. Alguns cineastas tentaram a aventura de dar corpo fílmico à compreensão de que me atrevo a falar. Porém, independentemente da qualidade dessa ambição e do interessa das obras que dela resultam, falha sempre alguma coisa. Porque o fora e dentro dos filmes é radicalmente diferente do fora e dentro da pintura. Não apenas a pintura precisa de luz, «natural» ou «artificial» para ser vista, como, em lugar de se projectar num pedaço de parede branca com negro em redor, ela precisa de um enquadramento de branco (ou de «vazio») à sua volta - é isso que a mania das molduras nos diz por burguesa antifrase, além de nos dizer vontade de fazer do quadro algo de tranquilizante e inofensivo. Dentro deste «Jardim Esquecido», Mário Dionísio parece procurar o sol de outras cabeças, luzes internas à tela e não provindas de uma teia virtualmente fora de campo. E também a sucessão de superfícies pelas quais, graças à reflexão, clarões e claridades emaranhadamente se revelam. Glosando Katherine Mansfield, o artista quer ser tudo em que é capaz de se transformar. Por dentro.

 

 

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