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Áreas Principais

 

 

Capa Livro: Conflito e Unidade da Arte Contemporânea

 

Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958

Conferência na SNBA, Lisboa (I Exposição de artes Plásticas da FCG, 1957),

Museu Machado de Castro (Coimbra) e no Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco (1958).

 

 

Embora esteja estabelecido na organização de todos os espectáculos que o programa pode ser alterado por qualquer motivo imprevisto — e embora não se trate aqui rigorosamente de um espectáculo — não saberia come­çar sem pedir-vos desculpa de uma alteração de impor­tância (mas nada imprevista...) que o vosso programa sofreu. E é esta a alteração: Não falarei como crítico de arte — que não sou — nem como historiador de arte — que ainda muito menos desejo ser—, mas apenas como um incorrigível apaixonado de palavras e cores, que não vê no seu sortilégio tão somente aquela capacidade lúdica a que alguns observadores e doutrinadores, um tanto apressadamente, por vezes as reduzem, mas uma das expressões mais sérias, mais necessárias, mais de­cisivas de todos nós e de cada um de nós, onde a cada minuto se arrisca e se conquista o nosso próprio destino.
O crítico desmonta, analisa, confronta, indaga da perfeição da obra. Da obra pronta, naturalmente. Apesar de não ter nunca chegado aos extremos, bem singula­res, daqueles que, à leitura de um romance, preferem a leitura dum ensaio sobre o romance, creio conhecer o verdadeiro deleite que a crítica proporciona e até aque­les casos, não muito vulgares, em que o prazer do romance, ou da poesia, ou da escultura, ou da sonata, se equilibra com o do ensaio da sua interpretação. O historiador tem a virtude preciosa de prolongar, embora noutro plano, esse prazer da sondagem através do tempo. De remontar às origens próximas e longínquas, de iluminar recantos obscuros e essenciais que os nossos pobres olhos, cegos de actualidade, nunca sem eles verificariam. Ambos nos são imprescindíveis. Mas vou ter a ousadia de dizer, entre nós, que qualquer deles me pareceria hoje aqui indesejável.
Hoje apenas — é evidente. E indesejável só porque, embora com toda a sua indispensável capacidade de análise, a sua erudição, a sua experiência dum tipo determinado, a sua fecunda projecção no futuro, tanto o crítico como o historiador inevitavelmente se exercem sobre o que passou, sobre o que está acabado, sobre o que não se repete. E o ambiente em que hoje aqui nos encontramos — entre estas paredes transfiguradas por tantas obras que, com a mais feliz das surpresas, encon­tro e, nalguns casos, reencontro reconduzidas à frescura da sua força original — me parece estimular-nos muito mais à audácia de imaginar o que se espera do que à tarefa de analisar o que se fez.
Ou será porque cada pessoa só está mesmo à vontade dentro daquilo que no momento intensamente a preocupa. Ou porque, quando damos por um erro grave na solução dos problemas graves que se nos põem, não podemos seguir simulando ignorá-lo. Ou porque só o que se espera ardentemente nos chama, sobretudo nas épocas de perplexidade, onde a força da desilusão e do desencanto não é comparável senão à da expectativa renovada de que não sabemos desistir.
De qualquer modo, não é como critico — que não sou —, nem como historiador — que ainda menos desejo ser —, que aceitei a honra de vir aqui falar.
Sobre o problema que levanto, é talvez cedo para a crítica (a histórica, naturalmente) se poder pronunciar. São hipóteses, são sonhos, que precisam daquela margem muito grande de liberdade que geralmente nos repugna conceder ao crítico.

Falo principalmente para os artistas, que sentirão decerto — e decerto com muito mais acuidade — as mesmas dúvidas e os mesmos desejos de experiência que me inquietam e entusiasmam. E para aquele público que — em vez de avaliara obra pela cotação do mercado ou de exclamar diante de certas obras «Isto também eu fazia» — compreendeu há muito, ou está compreenden­do, que o que se passa nas telas está intimamente rela­cionado com o seu comportamento perante elas, e que é sem dúvida aquele público que se encontra nesta sala.

 

Mário Dionísio

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017