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sobre Mário Dionísio

 

 

Raramente eleve ter acontecido (entre nós, pelo menos) esta particular espécie de osmose – o rigor como composto químico da vida-e-da-obra de um homem. Em ambas persistente, não diluível, até ao fim.

 

Se numa roda de amigos ou de alunos se pedisse, à laia de jogo, a definição da pessoa de Mário Dionísio através de uma única palavra, ouviríamos de cada vez e vez: o rigor; o mestre; a disponibilidade; a generosidade; a atenção; a reflexão; o pedagogo; a camaradagem; a exigência – isto é, o rigor, outra vez.

 

O amor das coisas simples. Guiar, por exemplo. Tarde teve carro, era visível o prazer de conduzi-lo. Nalguns verões ganhou pequenas áreas de jardim em redor das casas escolhidas. Sorrindo, deambulava entre os canteiros, apontava-nos os tufos de flores radiantes entre a folhagem. Curioso, que nessa unidade nunca dissolvida coubesse o escritor, o poeta, o ensaísta, o crítico, o crítico de arte, o pintor.

 

Nestas páginas, vários serão, creio, os especialistas a manifestar-se e a testemunhar. Eu não quis foi faltar à reunião, quis estar presente, sabendo embora as palavras pobres para as lembranças ricas de um convívio já tardio. Em todo o caso, vinte anos suficientes.

 

Muito antes houvera a ponte dos livros, e A Paleta e o Mundo, por exemplo.

 

Mário Dionísio desde muito cedo se acercara da pintura, pelo lado de dentro usando-a ele próprio tomo expressão artística, procurando-a, perseguindo-a; pelo lado de fora como ensaísta e crítico, teorizando-a, historiando-a, dando a ver, numa preocupação de pedagogo, justamente. ("os guardas dos museus, que passam muitas horas diante das mesmas obras, não são forçosamente grandes conhecedores de pintura. A obra é sempre o resultado de uma luta. Apreciá-la é poder avaliar o preço de uma vitória. Por isso, o simples contacto com as obras não chega."), diz no primeiro volume da Paleta.

 

Mário Dionísio pintava e não expunha. Pintava porque precisava de pintar. Nos últimos anos de vida, horas inteiras, dias inteiros, sem poder arrancar-se do canto da casa que transformara em atelier.

 

Até que finalmente alguém o convenceu. Mas custava-lhe separar-se das telas, e, a maior parte delas, marcou-as como sendo "colecção do artista".

 

Numa das três exposições que dele vi, em 1989, 1991 e 1993 os títulos de cada quadro eram cantantes, misteriosos, poéticos, mas podiam talqualmente ser, todos eles, retirados do belíssimo livro de poemas Memórias de um Pintor Desconhecido (1965) e dou exemplos : Que faz aqui esta saudade em pleno dia? - Onde canta este pássaro / que ainda não há na tela – Que bela manhã de nevoeiro/para ser infeliz em companhia – Passar a mão num muro ou numa face – Hoje  a cor é o verde Veronèse . [... ]sujos de tinta os dedos ponho / no próprio sonho.

No intervalo de M.D. pintar as palavras (com "garança" e "manganês", "tinta esbranquiçada verde-azul um gris qualquer", Pincelada isolada e discrepante/só tu alegre e louca /despertaste este poço de sombra), derrama nelas o sofrimento humano. - Num fundo pardo/ toda a cor chama como um grito/ou um soluço. E também confirma a segurança afectiva: "Só o amor é grande. Só o amor".

 

Por isso envio esta pequena memória à Maria Letícia, companheira no mais activo e permanente sentido: partilha dos sonhos, sustos, despojamento e alegrias, e da amargura sempre subjacente a uma vida de adulto, por plena que ela seja.

 

Isabel da Nóbrega

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017