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Ensinar a saber

 

Havia sempre um adolescente transpirado que, à chamada, dizia: "Eu sei, setôr, eu sei, mas não sei dizer". Era no Liceu Camões e no princípio dos anos sessenta. E Mário Dionísio, o setôr em causa, retorquia "[...] só que enquanto não souberes dizer, não sabes".

 

O seu ensino era só isto: seja nas aulas de Francês – até ao 5º ano – seja nas de Português – 6º e 7º – ensinava  a saber dizer". Por isso insistia – e se insistia! – na organização do discurso, na estruturação do comentário, na propriedade dos termos, na ordem da apresentação, na convenção da paginação... Por isso fustigava quem começava a falar por "eu acho setôr", quem punha vírgulas como se fossem mosquitos à luz, quem não estabelecia um plano do que ia dizer... Por isso, a cada segundo, lutava pela clareza de expressão, pela capacidade de dizer, pela economia de meios. E corrigia as provas e anotava com escrupulosa minúcia e temível ironia. As suas aulas tinham como inimigos a impropriedade e a prolixidade. Por isso, cada uma tinha um princípio, um meio e um fim; o que dizia tinha uma ordem que todos os dias recomeçava e cada dia mais nítida se nos tornava – e as fichas que trazia para documentarem o seu discurso entravam no minuto certo.

 

Ensinar, para Mário Dionísio, era um acto de cidadania. Num país pobre e ignorante, ensinar – e no ensino público – era uma tarefa inadiável. Porque ensinar é ensinar a pensar com propriedade. Porque as raízes do fascismo também estavam na ignorância e na impropriedade. E, artista, nunca prescindiu de encarar o ensino como um acto de superior responsabilidade. E a escola – mesmo a escola fascista com os seus programas sebáceos e rituais putrefactos – era um lugar onde o artista que ele era podia diariamente cumprir a sua responsabilidade (o seu existencial compromisso) para com a comunidade. Na escola, era possível ensinar a "saber dizer", era possível todos os dias trabalhar contra a ignorância, a brutalidade, a mesquinhez, o salazarismo, o Diário de Notícias... Por isso, temos provavelmente menos poesias suas, menos contos, menos romances, menos quadros... Porque a sua vida foi vivida num momento – tremendo momento de todas as responsabilidades – em que grande parte das suas forças criativas se orientaram para a educação. Também por isso lhe devemos A Paleta e o Mundo, obra-prima memorável. Também por isso, as crónicas no Diário de Lisboa (para quando em livro?). Também por isso, a sua passagem pela RTP depois do 25 de Abril, e também por isso a sua entrada para a Faculdade de Letras com uma cadeira de introdução (Técnicas de Expressão do Português).

 

Na grande tradição didáctica dos D. Duarte, Verney, Sérgio... e, claro, de Bento Caraça – na grande tradição republicana das reformas da Educação – Mário Dionísio sabia que este país se transformaria – que a vida de todos os dias se transformaria – com novos e "verdadeiros métodos de estudar". E a isso dedicou a sua vida activa.

 

Quer isto dizer que o seu ensino apolíneo era neo-clássico?

 

Há quem o pense. Quem saía de lá sairia querendo estruturas harmónicas, formas perfeitas, preferiria a doce luz do racionalismo às ambíguas sombras da incerteza. Um neo-academismo? Só pode assim pensar quem não tenha ouvido a sua palestra – fora das horas de aula, no anfiteatro de Geografia – sobre os "100 anos de Pintura Francesa" que a Gulbenkian organizou na FIL, quem não tenha ouvido o seu comentário à "Lola de Sevilla" de Manet. Só pensará assim, quem, estúpido, não tenha ouvido as quatro extraordinárias aulas que a todas as turmas do 7º ano dava de introdução ao Romantismo Europeu. E quem não o tenha ouvido comentar a estrutura serpenteante das Viagens na Minha Terra.

 

Se exigia e ensinava o comentário preciso e estruturado, se desconfiava – e com que sarcasmo zurzia! – das manifestações incertas do sentimentalismo juvenil, é porque exigia do "leitor" que somos uma atenção rigorosa ao texto.

 

Ler era, para Mário Dionísio, ler de perto. E a mim, ensinou-me a ler. Não a procurar nos livros o que já sei, ou me disseram, mas a nos livros partir para dentro deles próprios, a lê-los. E a necessitar disso, de ler tão de perto. Ler como quem pensa, como quem divaga ou, sobretudo, como quem, desprendido, se passeia – ler como o espelho de Stendhal, como Cesário subia o Chiado, ou com o cigarro que Garrett acende ao embarcar no Tejo e é tão bom.

 

Foi logo a seguir a ter sido seu aluno que Mário Dionísio publicou a Memória de Um Pintor Desconhecido, obra fundamental para compreendermos como a noção de "composição" é fulcral na sua aproximação da literatura. E como essa composição nasce de uma permanente atenção à matéria, ao doce e renovado duelo entre o pintor e a coisa amada que num e noutro se transformam. A ele devo assim, como artista, o meu extremo amor pela montagem, pela estrutura, pela "composição". (Ou é pela música - de que ele nunca falava?) Close Reader, como a melhor crítica anglo-saxónica que ele nunca referia, não proclamava dogmas nas suas aulas, nem era o seu ensino uma tribuna estética: impunha, sim, uma disciplina, modesta e férrea, uma discreta maneira de nos fazermos convidar pelo texto, pelo texto só, por ele mesmo. (Só voltei a conhecer uma pessoa assim, outro mestre que de longe tive: Northrop Frye e até a caligrafia deles se assemelhava).

 

Só sabe quem sabe dizer, só sabe dizer quem está atento – e terá sido essa a lição daquelas mais de duzentas horas em que fui seu aluno. Aquilo que ele me ensinou naquelas aulas fascinantes, não foi a ficar dependente dele, a esperar a sua opinião para formar eu a minha. Foi a saber que só a precisão da linguagem nos permite pensar, que só o conhecimento aprofundado dos meios nos permite desenvolver o pensamento, só o confronto de ideias estimula as ideias. Que saber é saber dizer.

 

Ou seja, que todo o pensamento é artesanal: trabalho e persistência, afirmação e controvérsia, mão e cérebro.

 

Eram aulas extraordinárias – em que a clareza didáctica não era redutora, em que o comentário não paralisava a leitura, em que todas as informações sobre a época ou o autor não prendiam, antes libertavam o sentido das coisas. E o que é inacreditável é que ele se cingia escrupulosamente ao programa do Ministério, mas com uma precisão, um rigor e uma leveza tais que essa aparente limitação nos incitava, e ainda hoje me permite, pensar nas coisas de que então se não falava, nos textos que não vinham no programa, nas Cpcxus que não eram abordáveis. Nessas aulas, aprendi que tratar de um assunto e só dele, limitar o objecto de análise, cingirmo-nos ao campo de estudo, pode permitir o mais puro exercício da liberdade do pensamento – e nos incita a pensar mais tarde, anos depois, décadas depois, noutras cidades, noutras ruas, noutros assuntos e não necessariamente literários. Porque o seu ensino era a aprendizagem da atenção.

 

E sempre depois destas aulas, onde havia calor e ironia, e havia indignação, sarcasmo, amargura, civilidade e inquietação cívica mas também um irreprimível entusiasmo, onde havia surpresa e admiração, vontade de conhecer e estimular, eu saía para a rua mais feliz, mais alegre, mais firme, mais inseguro também. Porque mais atento. À rua, aos outros.

 

Não é para isso que "serve" a literatura, essa coisa de que sempre nos perguntaremos, irritados com a sua impotência: "Mas para que serve?"

 

Jorge Silva Melo

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017