Ligações rápidas

Horário de Funcionamento:
Segunda, Quinta e Sexta
15:00 / 20:00

Sábados e Domingos
11:00 / 18:00

 

 

Áreas Principais

 

 

sobre Mário Dionísio

 

 

Mário Dionísio – o cidadão

 

Além dos aspectos literário, artístico e profissional (que outros tratarão adequadamente), é uma faceta relevante e característica da personalidade de Mário Dionísio o seu comportamento cívico, a sua postura como cidadão. Por isto e porque, nas circunstâncias em que decorreu, a sua vida política dá um exemplo raro, vale a pena salientar esta faceta, a que não tem sido prestada toda a atenção que merece. A actividade cívica de Mário Dionísio iniciou-se muito cedo, desde os tempos do liceu, com as lutas académicas antifascistas.

 

A sua aversão ao capitalismo nasce também muito cedo, por volta dos 17 anos, quando teve de prover ao seu próprio sustento e, para isso, de tratar com traficantes e usurários. Nessa altura, como ele próprio diz na sua autobiografia, ainda não tinha tido acesso à leitura de Marx nem tinha sequer ouvido falar de Lenine.

 

Daí em diante, não só a sua resistência ao fascismo mas também a sua luta anticapitalista encontraram variados meios de expressão: o jornalismo (em PRISMA, revista que fundou aos dezassete anos, MOMENTO, GLEBA, LIBERDADE, SOL NASCENTE, O DIABO, ALTI­TUDE, SEARA NOVA, O GLOBO, VÉRTICE, O TEMPO E O MODO, O JORNAL, NOTÍCIAS DA AMADORA, O DIÁRIO, VOZ DO POVO, EXPRESSO, JORNAL DE LETRAS, além de jornais diários de Lisboa e Porto); e literatura (poesia, contos, ensaios); a pintura, apreensão pela PIDE de um quadro seu, apresentado – sob  pseudónimo – na II Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1947); o trabalho clandestino (Bloco Académico Antifascista, a BARRICADA, Socorro Vermelho Internacional, Partido Comunista Português).

 

À luta política dedicou uma grande parte da sua actividade durante toda a vida, e isto porque, diz ele, "...sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felicidade dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse peso na consciência". Luta esclarecida porque, aos generosos impulsos da juventude, juntou um aturado estudo da evolução das sociedades humanas (História, Filosofia política, Marx, Lenine). Por isso tinha convicções bem alicerçadas, que, com uma coerência exemplar, manteve sempre. Mesmo nas crises de desalento que resultaram da subversão dos regimes socialistas da Europa de Leste e do desmoronamento da URSS, as suas convicções comunistas, marxistas, leninistas, mantiveram-se integralmente, como teve ocasião de, mais uma vez, repetir com firmeza, em conversa comigo poucos dias antes do seu inesperado falecimento. A sua intervenção política recrudesceu depois do 25 de Abril, mercê do entusiasmo que a Revolução suscitou em todos os antifascistas. Passou então a expressar, sem inibições, a sua posição político-filosófica, que se revela claramente em tudo o que escreveu e disse desde então, mas que se expõe da forma mais completa e precisa nos magníficos artigos que publicou no DIÁRLO DE LISBOA de 4 e 7 de Novembro de 1977, por ocasião do 60a aniversário da Revolução de Outubro. Exerceu, logo em 1974, tarefas políticas espinhosas no Ministério da Educação e, mais tarde, na Radiotelevisão Portuguesa, tarefas essas que não conseguiu levar a bom termo por circunstâncias adversas da evolução política. Mas, como repetidas vezes afirmou, nunca foi seu objectivo, nunca quis ascender nos quadros da hierarquia política, nem durante a actividade clandestina ou semiclandestina nos tempos do salazarismo nem depois do 25 de Abril. Por isso e porque as circunstâncias políticas não lhe ofereciam possibilidades de efectuar trabalho útil, recusou, em duas ocasiões, o convite que lhe foi feito para ser ministro da Educação. A evolução da política nacional que, a breve trecho, se seguiu ao 25 de Abril, com a estranha democracia que veio a instalar-se e tem vindo a "aperfeiçoar-se", desgostou-o profundamente e levou-o a limitar a sua intervenção, que passou a ser mais discreta e menos frequente.

 

O currículo político de Mário Dionísio é, pois, a vários títulos, digno de nota. Caracteriza-se por um comportamento profundamente consciente, honesto, abnegado, corajoso, empenhado, coerente, generoso, eticamente irrepreensível. Mas isto não constitui, felizmente, um exemplo raro. Contamos, entre nós, um bom número de exemplos destes. Quando eu dizia que, dadas as circunstâncias em que decorreu a sua vida política, Mário Dionísio constituía um exemplo raro, referia-me ao seu comportamento depois de ter adoptado o estatuto de "independente". Em primeiro lugar, é conveniente recordar como ele próprio definiu o seu conceito de "independente", quando assim se intitulou: "...quando digo independente não penso em qualquer espécie de neutralidade ou indiferença. É preciso sublinhá-lo. Tão grandes têm sido as alterações semânticas nos últimos anos". "Também a palavra 'independente' foi tomando uma conotação inesperada, que atira, quem assim se considera, ou para o rol justamente desprezível dos que lavam daí as suas mãos, ou para a posição daqueles que noutros tempos se chamavam "simpatizantes". "Mas o independente é outra coisa. É alguém que, não tendo partido – porque nunca o teve ou porque deixou de tê-lo – e nem por isso se sentindo menos empenhado no destino comum, não está naturalmente disposto a proceder como se o tivesse".

 

O exemplo raro de Mário Dionísio está em que, ao adoptar o estatuto de independente, precisamente ao contrário do que estamos habituados a ver, sobretudo nestes últimos tempos, não mudou de campo, não abjurou, não passou a ter uma posição oposta à que tivera, não atacou nunca as ideias (porque continuava a professá-las) nem as organizações que foram as suas durante muitos anos.

 

Mário Dionísio continua a ser durante toda a sua vida, mesmo nos períodos de desalento dos últimos anos, um "comunista militante", embora tivesse deixado de ser militante do Partido Comunista. Tudo o que disse, tudo o que escreveu o testemunha claramente. Ele próprio explica este comportamento, que considera natural. Basta citar, da sua autobiografia, as seguintes passagens:

 

"A verdade é que nenhuma organização tem culpa dos seus doentes nem até dos seus períodos de crise sobretudo com dirigentes importantes na cadeia".

 

"Disse um dia a um jornal que os erros dos que estão mais próximos dos meus ideais, mesmo só em teoria, nunca me farão cair nos braços dos inimigos desses mesmos ideais. Disse-o então e digo-o agora. Amanhã a mesma coisa. Espero".

 

E assim foi.

 

Por que é que, sendo natural e obviamente lógico, o procedimento de Mário Dionísio constitui uma excepção? Para mim a explicação é simples, embora possa parecer apenas extremamente simplista: Tudo resulta, na imensamente maior parte dos casos, do carácter das pessoas, do grau de sinceridade e sobretudo dos móbeis com que assumem a sua posição política.

 

Ludgero Pinto Basto

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017