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Um olhar feito palavra

 

Foi em 1944 que veio a público O Dia Cinzento, primeiro volume de contos de Mário Dionísio, cujo título, contrariando uma prática corrente que o próprio autor viria a adoptar nas suas duas últimas colectâneas, não coin­cide com o de nenhuma das histórias nele incluídas. Desligado, portanto, de uma circunstancialidade concreta, esse título ganha em alcance, torna-se abrangente e envolve, de um golpe, o conjunto das narrativas que globalmente designa: o dia representa, por sinédoque, um tempo mais lato, época de sobressaltos, medos, desesperanças, que o cinzento metaforiza; o dia cinzento traduz assim a experiência desencantada da gente anónima e diversa que, sem verdadeiramente o saber, partilha dores e angústias, conhece iguais momentos de ternura, vive os mesmos sonhos frustrados por entre os tons baços do quotidiano citadino.

 

Passaram anos e essa primeira recolha reapareceu, reescrita e aumentada, em O Dia Cinzento e outros contos (1967). Vieram depois – muito depois – Monólogo a Duas Vozes (1986) e A Morte É para os Outros (1988). E se o correr do tempo alterou a realidade nos seus aspectos mais imediatos, transformando cenários e suscitando o tratamento de novos temas, nem por isso os dias se tornaram mais luminosos.

 

Felizmente, porém, nunca o cinzento dos dias embotou, em Mário Dionísio, a imensa capacidade de olhar que está na génese do seu discurso narrativo. Nascidos de uma necessidade simultaneamente ética e estética, os seus contos fundam-se num grande poder de observação o de um olhar lúcido, perscrutador, muitas vezes irónico, atento às situações e aos comportamentos e capaz de partir deles para alcançar as consciências, mostrando-se igualmente sensível às movimentações exteriores e interiores de cada indivíduo a que dá corpo, voz, pensamento -e provam, desde a primeira hora, que a assunção de uma posição ideológica claramente marcada não tem de cumprir-se em construções fundadas no maniqueísmo fácil a que outros não resistiram. Sem nunca perder de vista os conflitos, manifestos ou apenas latentes, que afectam o tecido social na diversidade de classes separadas por interesses divergentes, Mário Dionísio prefere centrar a sua atenção no homem, que elege como matéria fundamental do universo que cria e de cujas dúvidas e esperanças, ansiedades e contradições não deixa nunca de se fazer eco.

 

Certamente por isso, há, na sua ficção, uma tendência muito marcada para contar privilegiando o mundo das personagens, tendência que se concretiza ora pela escolha de um narrador-protagonista empenhado numa auto-análise e na complementar reflexão acerca do comportamento dos outros, ora pela colagem do ponto de vista do narrador ao de uma personagem particular, de regra o protagonista da história. É assim que os seus textos vivem, em larga medida, do acompanhamento de uma consciência -quer desfilem, perante ela, retalhos do passado e de presente, alternando e iluminando-se; quer deambule estimulada pela pura observação do mundo circundante, mundo contrastado, capaz de suscitar reconhecimentos e perplexidades, identificações e distanciamentos, devaneios e decepções; quer oscile ao sabor de uma inversão de papéis, que tanto pode ser ditada por simples circunstâncias do dia-a-dia como, num plano mais vasto, pelas contingências da própria vida.

 

Do movimento de íntimo aprofundamento a que invariavelmente se assiste e que sempre sublinha um sentimento ou um estado emocional de alguém inserido num mundo cada vez mais desprovido de valores autênticos resulta sempre, entre certezas e interrogações, a afirmação de um eu, às vezes solitário, teimando em opor-se aos outros, dos quais é ou se supõe diferente, às vezes empenhado, preferindo diluir-se num colectivo, sentir-se parte de um nós em confronto com um eles hostil ou simplesmente distinto e incompatível.

 

A palavra nasce, em Mário Dionísio, de um sistemático exercício do olhar, que lhe permite avaliar o mundo e cada homem, em extensão e em profundidade. E, quando o olhar se volve discurso, avultam a segurança com que o narrador adere ao ponto de vista de uma personagem, registando-lhe modulações afectivas e racionais, o notável sentido do equilíbrio da exposição e do ritmo da frase que conferem a cada relato uma particularir subtileza, quase sempre ligada a uma matização psicológica ou a uma intensificação emotiva a que o leitor não pode deixar de ser sensível.

 

Cristina Almeida Ribeiro

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017