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Capa livro:Terceira Idade

 

Mem-Martins: Publicações Europa-América, 1982, col. Obras de Mário Dionísio nº10,

c./ retrato de MD por Júlio Pomar (1950)

 

 

índice

 

Ó lúcido fantasma a que fugi

11

Obceco-me de ti que mesmo aqui vivias sempre na floresta

13

Entre arbustos de outono

15

Como era belo o barco

16

Que centrípetas forças arrastamos

17

Céu de espantosos gritos que ficaram nos ecos da memória

18

Uivo rouco de apelo

19

Voltado para o parque de velhas árvores sem folhas

20

Uma folha? Passos? Restolhada

21

Tanta gente sentada nesta sala deserta

22

Esta mão que inconformada se conforma

23

Onde te vi olhar

24

Encostada à janela de guilhotina

26

Assustado rufo de asas na floresta

28

Quando as palavras abrem canais de transparência

29

Vê-se agora melhor o mais distante

30

No grande côncavo da noite a bicicleta

31

Ele vem num silêncio de descalço

32

E outros que chegavam trazendo pelo escuro

33

Ter medo é próprio do homem

34

Os pinhais não são hoje como esse de névoa

35

Do que não volta mais desponta outro prazer

36

Ó frescura

37

Translúcida brandura

38

Estamos agora em paz

39

E de súbito

40

A vida inteira com as unhas vorazmente abrimos

41

Cartucheira de flores a tiracolo

42

Vejo-o no fim dum túnel lá muito de onde em onde

43

Trinta anos depois

44

Pergunto as horas na rua para ver

45

Os olhos    São os olhos que mais estranho

46

Pior que não cantar  

47

Quantos sabem

48

Palavras de alcatrão escritas com luz no muro

49

Esse olhar morno

50

Que nojo    São carcaças

51

Oh que cheirinho a antigamente

53

Foi hoje a enterrar

55

A chuva escreve-lhe nos ombros

56

Soldado ou eu fardado

57

Depois da festa pois    Se festa

58

Ai de quem aprendeu

59

Oh doce paz interior absurda

60

Quem dera separar o que é e o que está

61

Compreender-te é saber o outro lado

62

Não digas para sempre

63

Quanto ainda durarão

64

Quando não se gastara ainda o azul das baías nos cartazes

65

Um comboio que no campo ao longe passa

68

De entre o tanto que esquece

69

Em tempo e à margem

70

Não há momentos banais

71

Eis-me o Rembrandt hoje nas veias

72

O amarelo da seara ao sol

74

Toda a tarde jazz    E que me rala imaginar

75

Ela canta agarrada como que sensualmente ao microfone

76

Jóia discreta

77

Dão horas longe numa aldeia

78

Mal se vêem os prédios

79

País de azulejos partidos

80

Jovem de riso ardente  

81

Retrato de frente e de perfil

82

A floresta omnipresente

84

Nós vivemos de mitos dentro de mitos para os mitos

85

Imóveis imagens pardas

86

Acender a lareira num dia quente lá fora

87

Dê-se por acabado

88

Há hoje outras respostas elas mesmas perguntando

89

Quando dei por isso já era sempre tarde

90

Alguém morre

91

Uma alvorada onde relincham potros

92

É hoje o primeiro dia

93

Deixem-me alargar prolongar exagerar o passeio

94

Venho atravessando a custo há milhares de anos

95

Estás definitivamente tão cansado

96

Num banco de jardim ao sol

97

Assim se fazem as cousas

98

O que em mim dorme

99

Quando a terra se acaba

100

E curioso

101

Rosto como os detesto

102

Oh sedução dos destinos ignorados

103

Para que alheias paragens onde é difícil respirar

104

Quem sabe que entre altos cedros aqui estás

105

E então começou a dormitar

106

Acaso interessa

107

Saber ver dos bastidores

108

Há um de prodígio alguns minutos antes do sol-pôr  

109

Quem vier

110

Concha que se fecha devagar

112

 

 

 

***

 

Acaso interessa
a data do nascimento
ou a de agora?

 

A nossa idade é a do mundo

A dele a nossa

 

Ao longe lenta uma carroça

leva-nos mortos para o

fundo do tempo

 

E ele ali mesmo recomeça a

toda a hora

 

 

***

 

(Janeiro de 81)

 

Foi hoje a enterrar
o velho torcionário
com honras militares

 

Cercavam-no os seus pares
impunemente
de morte ameaçando
quem tal via

 

Do crime funcionário
chegou ao fim aproveitando
a apatia conivente
instituída

 

A teia da vergonha entretecida
de espanto empesta o ar

 

Viva a democracia!

 

 

***

 

(mesma data)

 

Oh que cheirinho a antigamente
neste cair da noite na cidade
As bruxas saem das tocas
e escarranchadas em brocas
atravessam vorazmente
a nossa perplexidade

 

Altos carros de sombra estacionados
com maxilares de gruas
demarcam campos de acção
De polegares no cinturão
bandos de furões fardados
esperam nas esquinas das ruas

 

Já quem passa olha e não vê
não responde nem pergunta
Lembra-lhe bem o que houve
este cheirinho    E o que ouve
dá-lhe a chave do que lê
Pairar sim mudança nunca

 

Ai que cheirinho real
às mortes pela calada
Abutres togados ditam
sentenças que ressuscitam
contra a lei o arraial
dos netos de Torquemada

 

Regressam os saneados
saem miasmas dos lodos
O que é passado passou
Dão-se as mãos o galo e o grou
Cheguem-me nesses explorados
que Portugal é de todos

 

 

***

 

Pior que não cantar
é cantar sem saber o que se canta

 

Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta

 

Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda

 

Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano
que só vento electriza
em ruidosa confusão
de engano

 

A Revolução
não se burocratiza

 

 

***

 

(Março de 78)

 

Que nojo    São carcaças
de gente morta por dentro
Escondem mucos pegajosos
que empestam toda a paisagem

 

São abutres pelados são caraças
de olhos vítreos de intenção
são bostas de sangue e o centro
de onde mana a corrupção
Só nunca serão carrascos
porque lhes falta a coragem

 

O medo os faz silenciosos
pelas costas atrevidos
Movem-nos ódios e ascos
flatulências de ambição
pequeninos verrinosos
gordurosos retraídos

 

São fura-greves são espias
vaidosos de ser pisados
segregam epidemias
de vergonha    São repolhos
de gangrena engravatados
São piolhos são piolhos
são piolhos

 

 

***

 

Tanta gente sentada nesta sala deserta
Outros de pé encostados ao fogão de costas para a janela
Só se entendem é claro porque nunca se encontraram
Entram e saem pela porta sempre aberta
E eu recordo com eles coisas que não se passaram
o que a vida não foi que é o que brilha nela

 

 

***

 

(1 de Julho de 81: morte do Carlos de Oliveira)

 

É hoje o primeiro dia
em que há mundo sem ti

 

Esforço-me por entender o sem sentido disto

 

Mas não se pensa o que se chora
Espanto-me sim de esta cidade para mim vazia
ser para os outros como sempre a vi

 

Que pode haver agora?
Que enganosa miragem?
Tu não foste fazer uma viagem
Tua ausência não é um intervalo

 

Vai-se indo pouco a pouco o porque existo
E nunca mais também sem ti
saberei sequer reinventá-lo

 

 

Mário Dionísio

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017